sábado, 2 de julho de 2011

Sobre os olhos de um judeu

Ele era bonito e atraente, não para o padrão de beleza habitual, mas era. Era diferente e deve ser por isso que ele não sai da minha cabeça desde a primeira e única vez que o vi.
Não estou dizendo que foi amor à primeira vista. Não. É interesse e atração pelo desconhecido, pelo diferente, como se meu coração quisesse se aventurar e mergulhar em algo incomum.
Sua pele era branca e suave. Contrastava com a camisa azul escura de mangas desajeitadamente dobradas em 3/4 nos seus braços cheios e com a calça igualmente escura e confortavelmente folgada indo terminar de forma graciosa em seus tênis surrados.
Não sei dizer ao certo a sua altura, mas sei, estranhamente, que se eu fosse beijá-lo teria que ficar nas pontas dos dedos dos pés. Não era magro, nem tampouco gordo, ao olhar para seu corpo tive a sensação de que sua dieta judia estava fazendo muito bem para ele. Sim, ele era judeu, posso afirmar isso porque eu vi o seu pequeno kipá* na parte de trás da sua cabeça afilada amassando seus pequenos cachos castanho-avermelhados. Sua mochila preta e estilosa me fez achar que ele vinha da faculdade.
Ele estava sentado num banco do shopping em frente a uma loja de calçados, olhando distraído para algo em suas mãos, não consigo lembrar o que era. Eu estava naquela loja. E quando eu saí de lá, passei por ele e senti seu olhar sobre mim: profundo, observador, interessado, quase como se estivesse pedindo para olhá-lo da mesma maneira.
E aí está o mais atual, constante e agonizante arrependimento da minha vida: eu não olhei para ele.
Não posso descrever o seu rosto, ou pior, não posso descrever os seus olhos. Se eram brilhantes ou opacos, se lá havia brincadeira ou seriedade ou, pelo menos, a cor deles. Ah, como eu me arrependo...
Mas eu peço ao meu D-us*, que é o mesmo dele, que eu possa o reencontrar e ter a segunda chance de olhar nos olhos dele e dizer:
- Tive medo de nunca mais te ver.


Seria a descrição sobre um olhar mais feliz da minha vida.


*Kipá: É um pequeno chapéu em forma de circunferência, utilizada pelos judeus tanto como símbolo da religião como símbolo de "temor a Deus".
*D-us: é uma das formas utilizadas por alguns judeus para se referirem a Deus sem citar seu nome completo, em respeito ao terceiro mandamento recebido, através do qual Deus teria ordenado que seu nome não fosse falado em vão.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Tive o privilégio de ler em primeira mão e de me apaixonar. Uma descrição, maravilhosamente (per)feita.
    Quero mais desses. :3

    Beijo, Trombetinha. ♥

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